Bipolaridade (maníaco-depressivo): o rio que enche e seca

O rio que enche e seca, a bipolaridade numa leitura psicanalítica. Publicação no blog da Casa Camomila

A mania e a depressão contadas como um rio que enche e seca. Uma leitura psicanalítica, sempre ao lado do tratamento, nunca no lugar dele.

O causo

Quem já morou perto de rio grande sabe de uma coisa: tem rio que não sabe ficar no meio. Quando chove lá na cabeceira, ele incha, transborda, vira uma parede de água que leva ponte, cerca, bicho, e faz todo mundo correr pro alto. E meses depois, na estiagem, ele some. Onde tinha correnteza fica um leito de barro rachado. Essa história de água que não sabe ficar no meio tem tudo a ver com uma coisa que hoje o povo chama de bipolaridade, e que os antigos chamavam, com mais verdade, de maníaco-depressivo.

A cheia

Tem gente cujo humor é assim, rio que enche e seca. Primeiro vem a cheia, e no começo ela parece bênção. A pessoa fica mais acesa, dorme pouco e não sente falta, tem ideia atrás de ideia, fala rápido, rende, seduz, se sente enfim com a vida engatada. Quando a cheia é mais branda e ainda cabe no leito, tem até um nome mais manso, hipomania, e é ela que marca um dos tipos de bipolaridade. E é justamente aí que engana, porque parece só uma fase boa, das melhores.

Só que tem cheia que não sabe onde parar. Quando a água passa dos barrancos, vira mania de verdade, que é outra gravidade, e aí ela não pede licença nem conhece margem: arrasta junto o juízo, o sono, o dinheiro, às vezes os laços. Começa três projetos antes do café, promete o que não cabe, gasta o que não tem. E quando a água baixa, sobra o estrago que a euforia não deixou ver.

Quando a água cobre os marcos

E tem uma parte da cheia que precisa ser dita com todas as letras. Às vezes a água sobe tanto que cobre os marcos pelos quais a gente sabe o que é real. Aí a pessoa não está só animada: ela passa a acreditar em coisas que a cheia inventou. Que é invencível, que foi escolhida pra uma missão, que tem um poder que mais ninguém tem, que enxerga o que os outros não alcançam. São os delírios, e no auge da mania eles vêm com uma certeza de ferro, que argumento nenhum derruba. De dentro da enchente, aquilo parece mais firme que o chão. É a mente que virou plateia de si mesma levada ao extremo: sozinha no comando, ela constrói um mundo que só ela confirma. Por isso a mania forte não é empolgação, é coisa séria: quando a água cobre os marcos, é hora de procurar ajuda médica na mesma hora, porque a pessoa perde o contorno da margem e pode se pôr, e pôr quem ela ama, em risco de verdade.

A seca

Porque depois da cheia vem a seca. E essa ninguém escolhe. O rio some. A pessoa acorda e a água foi embora: sem vontade, sem gosto, sem força pra levantar, o corpo pesando como barro, a cabeça cheia de acusação contra si mesma, como se toda dor do mundo fosse culpa dela. O que na cheia parecia possível, na seca parece que nunca mais volta. É um leito rachado por dentro, e o pior é que, de dentro dele, a gente jura que sempre foi seco e sempre vai ser. A seca mente sobre o amanhã com a mesma cara de pau com que a cheia mente sobre os limites.

A criança que ninguém escutou até o fim

E aqui tem uma coisa que Christopher Bollas conta de um jeito que dói de tão certo. Imagina uma criança cheia de ideias. Ela fala, fala, e os pais até ouvem as palavras, mas não estão ali de verdade: presentes de corpo, ausentes de cabeça, ocupados demais, achando a criança um tanto demais. Com o tempo, o falar dela vira uma coisa solta no ar. Já não importa o que ela diz, importa só que está dizendo alguma coisa, porque ninguém tem tempo de escutar até o fim. Então a mentezinha acelera, pra ficar mais interessante, pra fisgar aquele ouvido que não para. E quando nem correndo ela alcança, faz o que pode pra não morrer de solidão: desiste do outro e vira plateia de si mesma. A mente vira o palco, o público e o ator, tudo junto, porque a mente ao menos escuta quando ninguém mais escuta.

Repara como isso explica o rio. A cheia é essa mente correndo desabalada pra encher de barulho o silêncio de um ouvinte que nunca chegou. E a seca é quando a corrida para, as luzes do palco se apagam, e sobra a casa vazia que estava ali embaixo o tempo todo. E Winnicott separava, com cuidado, duas coisas que parecem uma só. Tem a defesa maníaca, ideia que vem de Melanie Klein: o alto que existe só pra negar o baixo, o barulho pra não ouvir o silêncio. E tem a oscilação maníaco-depressiva de verdade, que ele dizia ser diferente por um detalhe fino, mas decisivo: uma cisão entre as duas margens. Na cheia, a pessoa não alcança a seca; na seca, não alcança a cheia. Não é só negar o baixo, é ficar partido entre os dois, sem que um lado consiga tocar o outro.

Um nome que segurava a pessoa

E é por isso que o nome antigo era melhor. Maníaco-depressivo, feio como é, segurava as duas margens do mesmo rio, de uma pessoa só, com uma história. Hoje se diz bipolar, e o rótulo virou quase um gráfico: dois polos e uma seta, como se fosse defeito no interruptor do humor. Tem gente demais recebendo esse carimbo sem nunca ter tido uma cheia de verdade. E, no meio do gráfico, o que some é a pessoa, e a história que fez o rio ser assim.

"No meio do gráfico, o que some é a pessoa, e a história que fez o rio ser assim."

Uma palavra reta, porque isso é sério

Agora sem rodeio, porque isso é sério demais pra deixar no jeitinho. Bipolaridade de verdade, a que tem mania, é doença, com um ritmo que é também do corpo, da química. O rio tem estações reais. Não é fraqueza de caráter nem falta de fé, e não se resolve com pensamento positivo. Nesses casos, um bom psiquiatra e a medicação certa são o que segura o nível da água pra pessoa não se afogar na cheia nem morrer de sede na seca. A psicanálise não briga com isso e não põe isso de lado, de jeito nenhum. Ela caminha ao lado, fazendo a pergunta que o remédio sozinho não faz: o que essa cheia veio gritar, e pra qual ouvido que nunca veio? Enquanto o remédio segura o nível, a escuta procura a pessoa que mora no rio.

E se você está agora na seca funda, naquela em que o peso chega ao ponto de pensar que ir embora seria alívio, por favor não carregue isso sozinho e não decida nada de dentro do buraco. Procura ajuda hoje: um médico, alguém de confiança, ou o CVV no 188, que atende de graça, a qualquer hora, em sigilo. A seca mente. A água volta, e volta mais rápido com companhia.

Alguém que escuta até o fim

Na Casa Camomila, o que se oferece é justamente essa companhia, ao lado do tratamento e nunca no lugar dele. Um lugar onde alguém não desiste de seguir o teu fio no meio da enxurrada, que não some quando a água baixa, e que, de tanto ficar, vai virando dentro de você aquele ouvinte que faltou lá no começo. Porque quem enche e seca desse jeito quase nunca precisou de plateia. Precisou de alguém que escutasse até o fim. É essa escuta winnicottiana que orienta o trabalho aqui.

Se quiser conversar, o primeiro encontro é gratuito e sem compromisso, e a psicanálise caminha junto com o seu tratamento. É psicanálise online, no seu tempo. Rio nenhum é só cheia nem só seca, e ninguém devia ter que atravessar as duas sozinho.

Perguntas que costumam aparecer

O que é bipolaridade?

Bipolaridade, antes chamada de transtorno maníaco-depressivo, é uma condição em que o humor oscila entre extremos: a mania (euforia, aceleração, grandiosidade, pouco sono) e a depressão (peso, vazio, perda de vontade). É uma doença com dimensão biológica real, não fraqueza de caráter, e o acompanhamento psiquiátrico costuma ser necessário.

Qual a diferença entre bipolaridade e as oscilações normais de humor?

Todos temos altos e baixos. A bipolaridade fica muito distante disso: são oscilações extremas, com episódios de mania de verdade. O termo bipolar hoje é usado em excesso, e muita gente recebe o rótulo sem nunca ter tido um episódio maníaco.

Qual a diferença entre mania e hipomania?

A hipomania é uma cheia mais branda: mais energia, menos sono, muitas ideias, sem perder o contato com a realidade e sem grande prejuízo. Costuma marcar a bipolaridade do tipo II. A mania é mais grave, pode trazer delírios e prejuízos sérios, às vezes exige internação, e marca o tipo I. Quem faz esse diagnóstico é o médico.

A mania pode vir com delírios?

Sim. Nos episódios mais intensos, a mania pode vir com delírios, em geral de grandeza: a pessoa se convence de que é invencível, de que tem poderes ou uma missão especial, com uma certeza que não cede a argumento. É um sinal de gravidade e pede avaliação psiquiátrica imediata.

A psicanálise trata bipolaridade?

A psicanálise não substitui o tratamento médico da bipolaridade, e não deve. Ela caminha ao lado: enquanto a medicação e o psiquiatra seguram o ritmo do humor, a escuta cuida da história e da pessoa por trás do diagnóstico, do que a mania tenta gritar e do que a depressão carrega.

Precisa tomar remédio para bipolaridade?

Na bipolaridade com mania, a medicação prescrita por um psiquiatra costuma ser essencial para estabilizar o humor e reduzir riscos. Não é algo que se resolve com força de vontade ou pensamento positivo. A psicanálise é um complemento, nunca um substituto do cuidado médico.

Como começar?

Pela entrevista inicial, gratuita e sem compromisso: é só chamar no WhatsApp ou mandar um e-mail. Se você já faz tratamento psiquiátrico, a psicanálise caminha junto com ele.

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Ou, se preferir, fale comigo direto: cerceau.psicanalise@gmail.com

Rio nenhum é só cheia nem só seca.