Luto: a perda e o tempo que ela pede

Luto: a perda e o tempo que ela pede. Publicação no blog da Casa Camomila

A saudade que insiste é o corpo ainda procurando quem se foi. Uma conversa sobre por que a perda dói tanto e sobre o tempo que ela pede.

O berro na cerca

Quem cresceu na roça conhece o barulho. Você separa o bezerro da vaca e ela berra. É um berro diferente do de fome ou de sede, mais fundo, que sobe da barriga. E ela fica dias assim, andando rente à cerca, cheirando o chão onde o bezerro pisou, virando a cabeça pro mato toda vez que estala um graveto, como se fosse ele voltando. Ninguém precisa traduzir esse som pra você. A gente ouve e sabe.

Guardo esse berro porque ele explica uma coisa que a palavra "luto" às vezes deixa fria demais. O que a vaca faz na cerca mora na gente também. É bem mais velho do que qualquer nome que a gente aprendeu a dar pra ele. Quando morre alguém que a gente ama, uma parte muito antiga de dentro começa a berrar do mesmo jeito, procurando, cheirando o chão, olhando pra porta. Só que a nossa cerca é feita de café da manhã, de lado vazio na cama, de nome que a gente ainda ia digitar no telefone.

A busca que não sabe que acabou

Um inglês chamado John Bowlby passou a vida estudando o que liga uma cria à mãe, e depois o que acontece com esse laço quando ele se rompe. Ele reparou numa coisa que quem está de luto reconhece na hora, mesmo com vergonha de contar. A gente continua procurando. Você põe dois pratos na mesa sem pensar. Ouve a chave na fechadura numa casa onde não tem mais ninguém pra chegar. Vê de longe um casaco parecido no meio da rua e o coração dispara antes de a razão avisar que não pode ser. Bowlby dizia que o enlutado é movido por um impulso de recuperar a pessoa, e que a saudade é a cara sentida desse impulso de sair atrás, de chamar, de buscar.

Faz sentido quando você para pra olhar. O amor construiu dentro de você um sistema inteiro apontado pra aquela pessoa: onde ela está, se está bem, quando ela volta. Esse sistema não recebe o aviso do enterro. Ele continua ligado, continua fazendo a ronda na cerca. Por isso a gente se pega procurando quem já sabe que não vai encontrar. Quem faz isso não está enlouquecendo: é o amor ainda de sentinela, que não desmontou o posto e segue fazendo a ronda de sempre.

Bowlby descreveu que esse caminho costuma passar por alguns estados, sem hora marcada e sem ordem certinha. Primeiro um torpor, aquela dormência de quem foi anestesiado e ainda não acredita. Depois o tempo mais longo da saudade e da procura, com raiva no meio, raiva de tudo e às vezes de quem se foi. Vem então um período em que a vida parece desmontar e nada tem graça. E, mais adiante, com paciência, um reacomodar das coisas. Ele fazia questão de dizer que a pessoa oscila pra frente e pra trás entre esses estados, num dia melhor, no outro de volta ao chão. Quem está passando por isso não está fazendo nada errado quando recua.

Por que dói no corpo

Tem uma pergunta que quase todo enlutado faz, meio sem graça: por que isso dói de verdade, no peito, na boca do estômago? Um neurocientista chamado Jaak Panksepp passou décadas mapeando as emoções no cérebro dos mamíferos e achou, bem no fundo, um circuito antigo que ele batizou de sistema do desamparo, o PANIC/GRIEF. É o mesmo maquinário que faz o filhote chorar quando perde a mãe de vista, o mesmo que faz a vaca berrar na cerca. Nasceu pra isso: soar o alarme quando o laço se parte.

E Panksepp achou também o porquê de a companhia de quem a gente ama ser tão boa. Estar perto de quem nos segura banha o cérebro com os opioides que ele mesmo fabrica, uns parentes internos da morfina, que trazem calma e aquela sensação gostosa de estar em casa. Aí a conta fica dura de fechar. Se a presença da pessoa alimentava você desse remédio de dentro, a ausência dela funciona como uma abstinência. O aperto no peito tem chão físico: o corpo entrou em falta, no sentido mais literal, de uma substância que aquele vínculo fabricava. Nada de frescura ou de fraqueza de fé. A dor do luto passa pela mesma fiação da dor física porque, pro cérebro antigo, perder quem cuida da gente sempre foi perigo de vida.

O luto sem velório

Vou puxar isso pra um lugar que talvez você não esperasse. Quem termina um namoro sério, ou leva um fora que não viu chegar, sente exatamente essa dor que eu venho descrevendo, e costuma sofrer sem entender por que arde tanto, já que ninguém morreu. O berro na cerca não pergunta se a pessoa morreu ou se foi embora. Ele só sabe que o laço se partiu, e dispara igual. O mesmo sistema que procurava o marido chegando na porta agora procura o ex em cada notificação do celular.

E tem uma judiação a mais no término, que é bom dar nome. Quando alguém morre, o mundo para um pouco: chega comida na casa, o serviço libera uns dias, os outros abaixam a voz. No fim de um amor não chega nada disso. Você levanta no outro dia e a vida cobra que você já esteja de pé, porque foi "só um namoro". Aí a pessoa chora escondida, com vergonha do tamanho da própria falta. É um luto que ninguém autoriza, sem velório e sem pêsames, e talvez por isso mesmo ele grude e demore a passar.

Ainda por cima o outro continua vivo, e isso, que parece um consolo, atrapalha. O número ainda funciona. O perfil está ali pra você espiar de madrugada. A cabeça fica ensaiando a volta, a conversa que consertaria tudo, e o posto de vigia nunca recebe o aviso de que acabou. Terminar, então, às vezes custa mais a assentar do que se imagina, e pede a mesma paciência que a gente daria a qualquer outra perda. Quando o que dói é a sensação de ter amado um retrato que não batia com a pessoa, contei essa parte à parte, na traição e decepção amorosa.

O tempo que o luto pede

Junta as duas leituras e sobra um consolo estranho, mas verdadeiro. A saudade que insiste, a procura que não cessa, o corpo que dói: tudo isso é a marca de um laço que foi real, não um defeito seu. A gente sofre na medida em que amou, e ninguém devia se envergonhar do tamanho da própria falta.

Isso também tira o luto do relógio. Volta e meia alguém chega perguntando quando é que isso passa, quantas semanas são o "normal", como se existisse um cronômetro. Não existe. A parte mais crua vai amolecendo com os meses, cada um no seu compasso, e o que o tempo faz é a pessoa mudar de lugar dentro de você, sem sumir. Deixa de ser aquela ferida aberta que sangra a qualquer esbarrão e vira uma presença mais mansa, uma companhia que cabe na vida sem rasgar. Você aprende a carregar. Não porque esqueceu, mas porque o amor achou uma forma nova de ficar.

"A gente se pega procurando quem já sabe que não vai encontrar. É um amor que ainda não desmontou o posto de vigia."

Quando o luto trava

Preciso ser reto num ponto, porque aqui é sério. Luto não é doença, é a coisa mais humana que existe, e a maioria das pessoas atravessa esse mato com o tempo, o colo de quem gosta delas e a própria força. Mas tem hora que o luto empaca e não anda. Passam-se muitos meses e nada abranda. A pessoa não consegue mais trabalhar, cuidar de si, tocar a vida. Fica dormente demais, ou desesperada demais, sem trégua. Freud, num texto de cem anos atrás, já separava o luto, que é a saudade que aos poucos liberta, daquilo que ele chamou de melancolia, quando a perda se vira contra a própria pessoa e o chão não volta.

Se você se reconhece nesse luto que travou, ou se aparece o pensamento de não querer mais viver, não segure isso sozinho. Procure ajuda hoje. O CVV atende no 188, de graça, a qualquer hora do dia ou da noite, em sigilo. Um bom médico e, quando é o caso, a medicação certa fazem parte desse cuidado. A psicanálise caminha ao lado, nunca no lugar, ajudando você a pôr em palavra o que o berro ainda não conseguiu dizer.

É uma escuta assim que orienta a Casa Camomila, a escuta winnicottiana: alguém que aguente sentar do seu lado enquanto você procura na cerca, sem apressar a sua saudade e sem dizer que já era hora de você "virar a página". O luto quer testemunha, não conselho. Se em algum momento você sentir que precisa dessa companhia, é só uma primeira conversa, de graça e sem compromisso. É psicanálise online, no seu tempo, que aqui é o tempo que a perda pedir.

Perguntas que costumam aparecer

Quanto tempo dura o luto?

Não tem prazo. A parte mais crua costuma abrandar ao longo de meses, e às vezes leva anos pra doer menos. O luto não termina como quem apaga a luz: o vínculo vai mudando de forma e a pessoa passa a caber na sua vida de outro jeito, mais calmo. Quem promete data pro seu luto acabar não sabe do que está falando.

Luto é depressão?

Não são a mesma coisa. O luto vem em ondas, e no meio delas ainda cabe rir, comer, lembrar com carinho. A pessoa que partiu segue presente na saudade. Quando o chão some por completo e por muito tempo, quando nada dá alívio e aparece a ideia de não querer mais viver, isso já é outra conversa, e é hora de procurar ajuda.

É normal continuar procurando quem morreu?

É. Botar o prato na mesa por hábito, achar que ouviu a chave na porta, quase discar o número. Bowlby mostrou que isso é o sistema de apego ainda fazendo o trabalho dele, ainda procurando a pessoa. É sinal de que amou, não de que enlouqueceu.

Terminar um namoro é um luto?

É, e dos mais subestimados. O fim de um amor aciona o mesmo sistema de apego de qualquer perda, então dói de verdade, com saudade, busca e aperto no corpo. A diferença cruel é que ninguém morreu: não há velório nem pêsames, e a pessoa ainda sente vergonha de sofrer tanto. Como o ex segue vivo e à vista, a saudade custa mais a assentar. Merece a mesma paciência que qualquer outro luto.

Chorar muito faz mal? E não chorar?

Nenhum dos dois é regra. Tem gente que desaba na hora e tem gente que fica dormente por semanas antes de a ficha cair. Os dois jeitos existem e são humanos. Não há forma certa de sentir a falta de alguém.

Quando procurar ajuda no luto?

Quando o luto trava e não anda: passam-se muitos meses e nada abranda, você não consegue mais tocar a vida, ou vem o pensamento de acabar com tudo. Aí não espere. O CVV atende no 188, de graça, a qualquer hora, em sigilo. A psicanálise caminha ao lado desse cuidado, nunca no lugar dele.

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O luto quer testemunha, não conselho.