Traição e decepção amorosa: o retrato que a gente mesmo pintou

O retrato que a gente mesmo pintou, a traição e a decepção amorosa numa leitura winnicottiana. Publicação no blog da Casa Camomila

A gente se apaixona por um retrato que pinta do outro. Amar de verdade começa quando esse retrato cai. Uma leitura winnicottiana da decepção e da traição.

O retrato

Toda paixão começa parecida com um pintor diante da tela. A gente conhece alguém, gosta, e vai preenchendo com tinta os pedaços que ainda não conhece, sempre com a cor que esperava encontrar ali. Um retoque na conversa que ficou pela metade, um brilho a mais no olhar, uma intenção bonita por trás de um gesto que talvez nem tivesse intenção nenhuma. Quando percebe, já está apaixonado por um retrato que em boa parte foi a sua própria mão que pintou.

A tinta é da gente

Freud reparou nesse fenômeno do jeito dele. Notou que quem ama concede ao amado uma espécie de isenção de crítica: os defeitos ficam fora de foco, as qualidades crescem, e tudo o que a pessoa faz passa a parecer justo e bonito. Bernard Shaw disse a mesma coisa com mais graça, numa frase que o próprio Freud fez questão de anotar, a de que estar apaixonado é exagerar de forma absurda a diferença entre uma pessoa e todas as outras. O retrato que a gente pinta acaba tendo mais ou menos o tamanho daquilo que andava faltando na gente.

Por que a gente pinta

Pintar assim tem uma razão bem antiga. Winnicott passou a vida observando bebês com suas mães e dizia que tudo começa exatamente desse jeito: no início o bebê vive a ilusão de que o peito, que chega quando ele tem fome, foi ele mesmo quem criou, como se o mundo inteiro fosse uma extensão dele. Longe de ser um defeito, essa ilusão é o berço do brincar e de quase tudo que a gente inventa de bom depois, o amor incluído. A gente cresce, mas nunca larga de todo esse costume de moldar o mundo à própria vontade, e amar é reencontrar esse costume. O retrato que sai daí carrega muito mais esperança do que engano.

A tinta racha

Com o tempo, a tinta começa a rachar. Por baixo dela vai aparecendo uma pessoa que a gente não pintou, com um cansaço que chega na hora errada e um jeito de amar que não combina com o que a gente tinha imaginado. É o que se costuma chamar de decepção, e o engano mais comum é achar que o outro mudou, quando na maioria das vezes ele apenas nunca foi o retrato. A pessoa de verdade esteve ali o tempo inteiro, esperando a tinta secar e cair.

Winnicott dava um nome a esse processo, desilusão, e fazia questão de lembrar que aceitar a realidade é um trabalho que não termina nunca. A vida inteira a gente vai rachando algum retrato e descobrindo gente de verdade por baixo, e é assim, doendo um pouco a cada vez, que a imagem vai dando lugar à pessoa.

Quando cai a moldura

A traição funciona de um jeito diferente. Ela não se contenta em rachar a tinta, derruba a moldura inteira e ainda deixa a pessoa em dúvida se algum dia houve mesmo um quadro ali. O estrago não fica parado no presente, volta pra trás e contamina a memória, e de repente a gente está relendo cada lembrança boa com uma lanterna na mão, tentando separar o que foi verdadeiro do que foi encenação. O mais cruel é que a pessoa começa a desconfiar até daquilo que os próprios olhos viram.

Ferenczi, um analista húngaro, estudou a forma mais funda de quebra de confiança, aquela que acontece na infância, e percebeu ali algo que ilumina também a traição entre adultos. O ato em si já machuca, mas o que costuma adoecer de verdade é o que vem depois dele, quando a pessoa perde a confiança no testemunho dos próprios sentidos e fica sem chão firme embaixo da própria história.

Dois dicionários

Ferenczi deu nome a outra coisa que a traição costuma escancarar, a confusão de línguas. Dois que conversam há anos, cada um falando no seu próprio idioma, convencidos de que diziam a mesma coisa. Para um, amor queria dizer porto seguro. Para o outro, queria dizer enquanto durar. As palavras eram idênticas, os dicionários é que eram diferentes. Quando isso finalmente aparece, a estranheza não se limita à figura do outro, ela toma a conversa inteira, que precisa ser traduzida de novo desde o começo.

O outro que sobrevive

O que vem a seguir custa a engolir. Winnicott dizia que um objeto só se torna real pra gente quando sobrevive, quando aguenta o nosso amor e também o nosso ódio e continua ali inteiro, do lado de fora, sem se desmanchar diante da paixão nem da raiva. Depois de sobreviver a isso é que ele deixa de ser criação nossa e passa a existir por conta própria.

Jessica Benjamin pegou essa ideia e a levou para o amor entre adultos. Enquanto o outro é apenas o retrato que pintei, ele funciona como um personagem meu, feito sob medida. No dia em que o retrato cai e a pessoa continua ali, com uma vontade que é dela e não minha, ela se torna um sujeito por inteiro, um centro de vida do mesmo tamanho que o meu. Reconhecer isso custa caro, e ainda assim é o único caminho para amar alguém de carne e osso em lugar de um quadro pendurado na parede.

A decepção, na medida certa, tem o seu valor. Ela é a passagem estreita por onde a gente deixa de amar a própria imagem e começa a amar quem está de fato do outro lado. A traição é uma versão violenta e injusta dessa mesma queda, uma que ninguém pediu e ninguém merece. Mesmo assim, quando a poeira baixa, costuma sobrar dela uma pergunta que vale a pena carregar: o que ali era retrato meu, e quem era a pessoa por baixo dele?

"A principal tarefa da mãe, além de fornecer a oportunidade da ilusão, é a desilusão." (D. W. Winnicott)

Quando o tombo é fundo demais

Boa parte das decepções segue esse caminho e passa com o tempo e uma companhia paciente. Algumas, porém, derrubam fundo demais e não passam: tiram o sono e a fome por semanas e chegam a apagar a vontade de seguir em frente. Quando é assim, ninguém precisa aguentar sozinho por orgulho, e buscar ajuda faz parte do cuidado com a própria vida. Se em algum momento a dor chegar ao ponto de fazer parecer que não vale mais a pena continuar, procure alguém ainda hoje. O CVV atende no 188, de graça, a qualquer hora e em sigilo.

Uma companhia sem veredito

A Casa Camomila não entra nessa história para dar veredito. Não vou te dizer se você deve ficar ou partir, perdoar ou fechar a porta, porque essa decisão é sua e só sua. O que a gente pode fazer juntos é sentar lado a lado e reler a galeria toda sem nenhum juiz por perto, viver o luto do retrato que caiu e ir recuperando aos poucos a confiança nos teus próprios olhos, que a decepção tinha bagunçado. É essa escuta winnicottiana que orienta o trabalho. Pra começar, basta uma conversa, sem custo e sem compromisso. É psicanálise online, no teu tempo.

Perguntas que costumam aparecer

Por que a traição dói tanto tempo depois?

Porque a traição atinge o passado tanto quanto o presente. A pessoa passa a reler cada lembrança boa com desconfiança, perguntando o que era verdade e o que era encenação, e acaba perdendo a confiança até no que os próprios olhos viram. Refazer esse chão leva tempo, e não é sinal de fraqueza.

Como superar uma decepção amorosa?

Superar tem menos a ver com apagar o que aconteceu e mais com viver o luto do retrato que a gente pintou do outro, reconhecendo no lugar dele a pessoa real que apareceu por baixo. Isso não tem prazo e não obedece a ordem de quem manda superar logo. Uma escuta cuidadosa ajuda a atravessar esse tempo sem se afundar em culpa nem endurecer o coração.

Existe amor maduro sem nenhuma decepção?

Não. Uma dose de decepção é justamente o que permite amar uma pessoa de verdade em vez de amar uma imagem idealizada dela. Winnicott chamava isso de desilusão, e dizia que aceitar a realidade do outro é uma tarefa que ninguém termina. A desilusão comum do dia a dia faz parte da vida; o que adoece é a decepção brutal, ou a que se repete sem parar.

Fui traído ou traí. A psicanálise vai me julgar?

Não. A Casa Camomila não oferece veredito sobre ficar ou partir, perdoar ou fechar a porta. O que a psicanálise faz é escutar sem juiz, ajudar a entender o que aconteceu e a reler a própria história, para que a decisão, seja qual for, seja sua e caiba em você.

Quando a decepção amorosa vira caso de procurar ajuda?

Quando o tombo derruba fundo demais e não passa: tira o sono e a fome por semanas, faz a pessoa se culpar por tudo, ou chega a tirar a vontade de seguir. Isso não é frescura, e não é para atravessar sozinho. Procurar ajuda aí é cuidado. Se a dor chegar ao ponto de achar que não vale mais viver, o CVV atende no 188, de graça, a qualquer hora, em sigilo.

Como começar?

Por uma primeira conversa, gratuita e sem compromisso, no WhatsApp ou por e-mail. A partir dela a gente combina como seria seu acompanhamento. É psicanálise online, no seu tempo.

Para ir além

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Ninguém ama de verdade um retrato.