Transtornos alimentares: nem toda fome é de comida

Nem toda fome é de comida, os transtornos alimentares numa leitura winnicottiana. Publicação no blog da Casa Camomila

Vão muito além da anorexia e da bulimia em jovens, e atingem homens também. Uma leitura winnicottiana, sempre ao lado do tratamento.

A despensa da avó

Tem uma coisa que quase todo mundo que teve avó de roça carrega na memória: o jeito da avó com a despensa. Casa que já passou aperto guarda comida com um cuidado que beira o medo. Umas avós trancavam o paiol a sete chaves, contavam cada punhado de feijão, racionavam como se a fome fosse bater na porta amanhã. Outras faziam o contrário: só sossegavam com a despensa transbordando, e mesmo cheia carregavam um vazio que farinha nenhuma enchia. Guarda essa imagem, que ela explica, melhor que muito manual, uma coisa de que todo mundo fala pela metade: os transtornos alimentares.

O retrato que falta

Porque, quando se toca no assunto, a cabeça corre pra uma imagem só: menina adolescente, magra demais, anorexia, bulimia. Isso existe, e é grave. Mas o retrato é bem maior. Do mesmo tronco brotam a compulsão, o comer que não sabe parar, e boa parte do sofrimento que hoje se apelida de obesidade. E, ao contrário do que se pensa, não é assunto de menina. Homem adoece disso também, e adoece mudo, com vergonha, porque cresceu ouvindo que "isso não é coisa de homem".

As duas portas

Volta pra despensa, e repara nas suas duas portas. Elas parecem opostas e são a mesma. Tem quem tranque: controla cada garfada, cada grama, cada regra do que é "limpo", segurando o mundo pela boca porque a comida virou a última coisa que sente que ainda manda. E tem quem não consiga trancar: enche, se pune, esvazia na culpa e enche de novo, tentando tapar com comida um buraco que não é de comida. Recusar e devorar são dois sotaques da mesma fome antiga.

A primeira relação da vida

Winnicott, que foi pediatra a vida toda antes de ser analista, passou anos debruçado exatamente sobre isso, sobre o apetite das crianças. E viu uma coisa que muda o olhar: não existe linha separando a birra do bebê que recusa o peito, a criança que não come e a anorexia do adolescente. É tudo um rio só, que começa na primeira mamada. Porque ser alimentado é a primeira relação da vida. Muito antes da primeira palavra, o bebê descobre que existe e é bem-vindo no mundo sendo segurado no colo e alimentado. A boca é a primeira porta por onde o mundo entra na gente. É ali, naquele começo, que a gente aprende a morar no próprio corpo. Ou não aprende.

E tem mais, e é aqui que a despensa e o Winnicott se encontram. Ele dizia que a criança imagina ter, dentro da barriga, um "mundo interno", povoado do que ela guardou de bom e de ruim, do que ama e do que teme. Quando esse mundo de dentro assusta demais, escreveu ele, uma de duas coisas acontece: a pessoa o tranca, num controle de ferro, ou é tomada por ele. Repara: são as duas portas da despensa, ditas por ele quase com essas palavras. E notou, ainda, que desde muito cedo o apetite vira uma defesa contra a angústia e a depressão. Ou seja, mexer na comida é um jeito de mexer numa dor que ainda não achou como se dizer.

"Nem toda fome é de comida. Muitas vezes é fome de ser recebido, de ter contorno, de existir sem ter que agradar."

O teatro do corpo

Por isso o nome dessa conversa. Nem toda fome é de comida. Muitas vezes é fome de ser recebido, de ter contorno, de existir sem ter que agradar. E o prato, coitado, nunca deu conta de saciar uma fome dessas.

Uma outra analista, Joyce McDougall, dizia que o corpo é um teatro. Quando um sentimento não encontra palavra, ele não some: sobe ao palco do corpo e encena ali, em sintoma, o que a boca não soube contar. E ela lembrava que isso é de todo mundo, que qualquer um adoece um pouco pelo corpo quando o de dentro não vira conversa. O transtorno alimentar é um dos teatros mais antigos desse palco. O corpo fala, em quilos e em regras, uma frase que a pessoa ainda não conseguiu dizer.

O corpo virou planilha

Esse teatro, aliás, achou palco de luxo no mundo corporativo, e eu vi de perto nos meus vinte e tantos anos por lá. O corpo virou planilha. Vira meta pra bater, número pra otimizar, projeto de disciplina com aplauso em volta. Controla-se a comida como se fecha um orçamento, jejua-se como quem cumpre prazo, treina-se como quem entrega resultado. É a despensa trancada de novo, só que agora com crachá de "alta performance". E, do outro lado do mesmo balcão, tem quem coma o estresse que não coube no dia, engolindo o vazio que o trabalho cavou, e aí a coisa faz fronteira com o burnout. O aplauso muda o nome. A fome é a mesma.

Uma palavra reta, porque isso mata

E aqui não dá pra suavizar, porque esse tema mata. Transtorno alimentar é doença séria: a anorexia é uma das que mais tiram vidas em toda a psiquiatria. Não é frescura, vaidade nem falta de força de vontade, e não se cura com "é só comer" ou "é só fechar a boca". O cuidado se faz a várias mãos: médico, nutrição, muitas vezes psiquiatra, e a escuta, todos juntos. E não espere estar magro demais, ou pesado demais, pra pedir ajuda. Não existe "grave o suficiente" pra merecer cuidado: se a comida virou o centro do seu dia, entre culpa, controle e segredo, isso já basta.

Onde procurar, aqui no Brasil: a porta de graça é o SUS, pelo CAPS ou pela unidade básica de saúde do seu bairro, que fazem o primeiro acolhimento e encaminham. Existem centros de referência especializados, quase todos no Sudeste e no Nordeste, como o AMBULIM (Instituto de Psiquiatria da USP, em São Paulo), o Cetrata (da UFC, em Fortaleza) e o ambulatório do Hospital das Clínicas da UFBA, em Salvador. Aqui no Norte, eu procurei e não encontrei um serviço especializado de referência. Isso não quer dizer que não exista: pode haver algo local, num hospital universitário ou pelo SUS, só que não é nada fácil de achar. Então, por aqui, o caminho costuma começar no CAPS e na atenção básica, e vale bater na porta da secretaria de saúde e perguntar. E se a dor chegar ao ponto de você pensar que não vale mais seguir, procure ajuda hoje: o CVV, no 188, atende de graça, a qualquer hora, em sigilo.

Uma mesa sem balança

Na Casa Camomila, a escuta caminha ao lado desse tratamento, nunca no lugar dele. O que se oferece aqui é um espaço onde a fome que não é de comida possa, enfim, virar palavra, pra o corpo parar de gritar sozinho, em quilos. É essa escuta winnicottiana que orienta o trabalho. Se quiser começar, a primeira conversa é sem custo e sem compromisso, só pra a gente se conhecer. É psicanálise online, no seu tempo. E, diferente do resto do mundo, aqui ninguém vai te pesar. A despensa pode ficar aberta o tempo que precisar.

Perguntas que costumam aparecer

O que são transtornos alimentares?

São condições em que a relação com a comida e com o corpo adoece. Vão além da anorexia e da bulimia: incluem a compulsão alimentar e boa parte do sofrimento associado à obesidade. Recusar ou encher são dois modos de lidar com uma angústia que a comida não resolve. São quadros sérios, e o cuidado é multidisciplinar.

Homens também têm transtornos alimentares?

Sim, e são subdiagnosticados pela vergonha e pelo mito de que é coisa de menina. Em homens costuma aparecer como compulsão, vigorexia (obsessão por músculo), ortorexia (obsessão por comida "limpa") e dietas ou treinos extremos. A leitura psicanalítica vale para qualquer pessoa.

A psicanálise trata transtornos alimentares?

A psicanálise não substitui o tratamento e não deve. Transtorno alimentar exige acompanhamento multidisciplinar: médico, nutrição, muitas vezes psiquiatra. A escuta caminha ao lado, dando palavra à fome que não é de comida, para o corpo não ter que falar sozinho.

Onde procurar ajuda para transtorno alimentar no Brasil?

A porta pública e gratuita é o SUS, pelo CAPS ou pela unidade básica de saúde, que acolhem e encaminham. Há centros de referência, quase todos no Sudeste e no Nordeste, como o AMBULIM (IPq-USP, São Paulo), o Cetrata (UFC, Fortaleza) e o ambulatório da UFBA (Salvador). No Norte não localizamos um serviço especializado de referência, o que não significa que não exista, então comece pelo CAPS e pela atenção básica. Em risco de vida, o CVV atende no 188, de graça e em sigilo.

Como começar?

Pela entrevista inicial, gratuita e sem compromisso: é só chamar no WhatsApp ou mandar um e-mail. A psicanálise caminha junto com o tratamento, nunca no lugar dele.

Para ir além

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Ou, se preferir, fale comigo direto: cerceau.psicanalise@gmail.com

Nem toda fome se mata no prato.